Carta aberta à amizade

Sábado, 21 de maio de 2016. 22h21min.

Faz dias que estou inquieta, tentando colocar meus pensamentos no papel. Faz dias que quero colocar em palavras organizadas um sentimento chamado amizade. Dia desses foi aniversário da minha melhor amiga, aquela amiga tipo irmã. Todos os anos, desde que a se conheceu, eu sempre paro um pouquinho o que estou fazendo para pensar no ano passou, nas coisas que passamos juntas, nos dias que não nos falamos, nos dias que a gente brigou e nos planos que fizemos juntas. Sempre procuro fazer isso com todos os meus amigos, não só nas datas importantes, mas quando der na telha como diz mamãe.

Lembro como se fosse agora que, na madrugada do dia 17 de maio desse ano, na hora que coloquei a cabeça no travesseiro para dormir (já passava de uma da manhã, eu estava bem cansada) me veio uma vontade absurda de escrever uma “carta aberta aos meus amigos”. Aquela vontade de falar para eles que, mesmo a sua maneira, eu os amo. Eu, simplesmente, queria agradecê-los. Ponto. Exatamente 00h11min. Terminei de escrever um baita textão, no nosso grupo de whatsapp, para minha amiga. Daqueles textos emotivos, que vem lá do fundo da alma e você escreve no puro extinto da emoção. Ela respondeu pouco tempo depois. Lembro que passei um bom tempo escolhendo uma foto nossa para postar junto com o tal textão numa rede social.

Era 00h48min quando eu fiz a última edição na foto que havia escolhido. Minha inquietação para escrever sobre meus amigos só aumentava. Na hora, vieram momentos legais e nada legais de que eu e meus poucos amigos passamos juntos. Não sabia se chorava ou se sorria. Então me dei à licença de fazer os dois ao mesmo tempo – o que foi um verdadeiro milagre. Olhei para a foto em preto e branco: nós duasno meu quarto, no meu aniversário do ano passado. A mente logo voou para as outras tantas fotos junto de meus amigos, para tantos outros momentos que só foram registrados na minha lembrança. Minha inquietação só crescia. Algo dentro de mim gritava a plenos pulmões que eu deveria parar tudo, respirar fundo e começar a escrever. Começar a simplesmente agradecer e ser grata, sem motivo algum, sem nada em troca, sem data especial. Só para lembra-los que nossa amizade é especial.

Confesso que só parei para escrever dias depois, quando essa inquietação quase me asfixiou e esses gritos dentro de mim quase me deixaram surda. Sentei na frente do computador para escrever depois de ler duas coisas: primeiro, uma reflexão que fiz numa rede social sobre o amor e segundo, uma publicação feita no mural de uma amiga que conheci na faculdade. A amiga dessa amiga relembrava um momento bom que passaram juntas e terminava com um “fique bemCarol”. Foi meu start para sentar e escrever. Organizar essa inquietação em palavras.

Posso não ser a melhor amiga do mundo, daquelas de fazer festa surpresa, de sempre comprar presente, de estar sempre presente, de escrever no dia do aniversário. Posso não ser aquela amiga de sempre deixar recado no caderno dizendo que te amo e sempre estarei ao teu lado. Posso não ser aquela amiga de sempre topar ir para balada contigo ou ir ao cinema. Posso não ser aquela amiga que sempre manda uma mensagem do nada para saber se você está bem. Posso não ser assim na maior parte do tempo. Juro que vou tentar dar o meu melhor, sempre.

Então, parei para pensar nos nossos planos. Naqueles planos que a gente fez no meio dos mais loucos devaneios ou no meio de muitas risadas ou até mesmo em pleno encerramento de um ciclo que a gente passou juntas. Pensei nas situações que a gente que teve que passar para permanecer juntas, nas loucuras que nós nos metemos no auge da nossa adolescência maluca, nas barreiras que tivemos que quebrar para estar aqui hoje. Tentei lembrar o momento que nos conhecemos – confesso que não consegui. Pensei até mesmo nos micos que pagamos juntas – olha, não foram poucos. Nesse momento, eu olhei para trás e me dei conta de que já passamos muitas coisas. Mas o que me perseguia mesmo eram os tais dos planos, aqueles que a gente tinha feito. Aqueles que a gente escreveu no papel, fez acordo de dedinho, brindamos para selar e não esquecer. Será que a gente realizou pelo menos um deles?

A gente planejou muitas coisas. Quantas coisas. Ler todos os livros da nossa série preferida, chorar em todos os finais felizes, ler todos os livros do Nicholas Sparks, fazer faculdade no mesmo local, morar um tempo nos EUA, viajar o mundo, estudar um terceiro idioma, ter um namorado maravilhoso, ter a melhor festa de formatura do ensino médio da escola, passar de primeira no vestibular, não ficar de recuperação final na escola. Planejamos não mais nos estressar por conta dos cases/papers, estudar para as provas com antecedência, perder o medo de apresentar seminário, ir para todas as festas, tirar a carteira de motorista de primeira, apresentar a monografia antes do nono período, passar de OAB na primeira, ir para a Disney, fazer um mochilão pela Europa, ficar um ano sem fazer nada. Planejamos de nos ver e de nos falar sempre. Planejamos viajar muito, ter vários passaportes. Planejamos, planejamos, planejamos.

A vida tomou seu rumo, seguiu em frente. A escola acabou e uma fase se foi. Nós crescemos, mudamos muito – tanto física quanto mentalmente. O mundo a nossa volta mudou. E como mudou. Já não pensamos mais da mesma forma, não gostamos das mesmas coisas, não temos mais o mesmo gosto para homens. Não temos mais aquele corte de cabelo estranho, as espinhas no rosto, o aparelho nos dentes que tanto incomodava. O quanto nós mudamos. Mas aqueles planos continuaram lá, nos perseguindo, nos fazendo lembrar de um bom tempo, aquele tempo que não volta mais.

Nós lemos quase todos os livros do Nicholas Sparks, não choramos em todos os finais felizes, não fizemos faculdade no mesmo local, não moramos um tempo nos EUA (ainda!), não viajamos o mundo, não estudamos um terceiro idioma, você arranjou um namorado maravilhoso, não tivemos a melhor festa de formatura do ensino médio, eu passei no vestibular de primeira, a gente ficou de recuperação final na escola. Sim, nós ainda nos estressamos por causa dos papers/case, a antecedência para estudar para a prova ainda não existe, não perdemos o medo de seminário, você foi a todas as festas, tiramos a carteira de motorista de primeira, ainda não fizemos a viagem para a Disney e nem o mochilão pela Europa. Ainda não viajamos o suficiente para tirar um segundo passaporte. Ainda não temos carga horária o suficiente para fazer a OAB. Não nos encontramos com a frequência que a gente planejou. Ainda, ainda, ainda.

Muitos de nossos planos ficaram para trás, apenas na memória. A gente não realizou uns, outros foram feitos pela metade e outros tantos surgiram de forma inesperada. É a vida, apenas seguindo seu curso, apenas existindo. O que importa é permanecemos unidas, amigas, companheiras. O que importa é que nós sorrimos as conquistas uma das outras, choramos as perdas uma das outras, demos as mãos quando mais foi preciso, nos abraçamos quando mais foi preciso. O que importa é que nós vivemos. A gente se reinventou, mudou o rumo da nossa história. A gente fez novos planos, e algumas vezes nós deixamos apenas a vida nos levar. Mas o que importa é que nossa amizade sobreviveu. E eu? Eu só posso falar que sou grata a todas vocês. Sou grata por cada sorriso, cada lágrima, cada briga, cada abraço, cada palavra amiga. Sou apenas grata.

Mariane Pinheiro

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